segunda-feira, 19 de outubro de 2015

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Plantio do Capim Vetiver - Projeto Piloto nas encostas da Cidade de Salvador - BA












ESTADO DA BAHIA
PREFEITURA MUNICIPAL DE SALVADOR – PMS
SECRETARIA MUNICIPAL DOS TRANSPORTES E INFRA-ESTRUTURA
DEFESA CIVIL DE SALVADOR - CODESAL



Plantio do Capim Vetiver
Projeto Piloto nas encostas da Cidade de Salvador - BA







Resumo
O presente relatório apresenta os resultados obtidos a partir do plantio do capim vetiver em 02 (duas) encostas situadas na cidade de Salvador-BA. Trata-se de uma iniciativa pioneira conjunta entre a Prefeitura Municipal de Salvador (PMS), através da Secretaria Municipal dos Transpores Urbanos e Infraestrutura (SETIN), coordenada pela Defesa Civil de Salvador (CODESAL) e em parceria com as instituições Biofábrica Jafm e a Associação de permacultura de Quingoma (APQui), no intuito de buscar alternativas para promover a cobertura vegetal de encostas desnudas e submetidas aos processos erosivos.

Introdução
Ao longo do seu processo histórico, a cidade de Salvador é acometida por acidentes associados a processos hidrogeológicos, devido à sua formação geológica peculiar, associado aos índices pluviométricos concentrados em determinados períodos do ano. Concorre também para isso o fato de haver uma ocupação urbana espontânea acelerada nas últimas décadas, tornando os escorregamentos freqüentes, o que acarreta grandes prejuízos ao município e aos munícipes, quando da sua ocorrência.
A ausência de infraestrutura em vários dos pontos associados a riscos de escorregamentos - são mais de 1200 pontos de acordo com o Plano Diretor de Encostas (PDE/2004) -, é um elemento relevante para o desequilíbrio e manifestação dos processos naturais de acomodação do maciço. Dentro deste contexto, busca-se reduzir os processos erosivos em encostas sem revestimento de vegetação, ora pela fragilidade que o solo encontra-se submetido, ora pelo carreamento de material e obstrução de redes de drenagem, tendo por consequência, alagamentos localizados.
Como alternativa para esta situação a solução adotada é o plantio de grama “em tapete”, de forma generalizada, inclusive em encostas com alta declividade, o que muitas vezes, apenas posterga o desencadeamento dos processos erosivos e deslizamentos de terra. Outras técnicas de cobertura vegetal, a exemplo da hidrossemeadura também faz parte das alternativas de reabilitação de áreas degradadas.
Com a intenção de procurar novas alternativas foi proposto em agosto de 2011 e executado em outubro do mesmo ano, através da referida parceria, a implantação de duas áreas experimentais no município de Salvador. A primeira área escolhida foi na Avenida Luis Eduardo Magalhães, via de grande fluxo de veículos acometida de escorregamento rotacional com grande impacto no trânsito de Salvador no ano de 2001, e que ainda possui muitas áreas desprovidas de vegetação. A segunda área escolhida foi no Vale dos Barris, outro ponto de grande fluxo de veículos em que, anualmente e de forma sistemática, lonas plásticas são disponibilizadas para cobertura superficial e combate ao processo erosivo em períodos chuvosos, de forma paliativa.
Desenvolvimento
Para efeito de materialização dos dados constantes neste relatório é importante o conhecimento prévio de algumas informações das áreas submetidas à intervenção, bem como, do capim vetiver.
Garcia – Vale dos Barris
Av. Luis Eduardo Magalhães
Ocupação Antrópica
03 - Predominantemente Vertical I, baixa renda, até 4 andares para cima e bem adensada.
Essas áreas evoluíram, em geral, a partir de ocupações desordenadas e de invasões passadas. Mesmo sendo, via de regra, portadora de obras de saneamento e de infra-estrutura (drenagem, rede de esgoto e coleta regular de lixo) apresenta uma elevada densidade de pontos de risco, associados a problemas como traçados urbanos inadequados, edificações sobre aterros sem controle tecnológico, taludes íngremes derivados de cortes promovidos para a construção e ampliação de imóveis sem acompanhamento técnico especializado, entre outros problemas característicos de um desenvolvimento urbano sem planejamento adequado. Ressalte-se a possibilidade de ocorrência e execução de cortes radicais, verticalizados, no terreno, com obras de contenção inadequadas e ineficientes que podem por a população em risco, especialmente nas vertentes íngremes no domínio da unidade geológica-geotécnica do Barreiras e trecho de contato deste com o manto de intemperismo proveniente da rocha cristalina alterada (regolito).

Ocupação Natural
F3 - Floresta Ombrófila antropizada estágio avançado de degradação (capoeira)
F2 - Floresta Ombrófila antropizada estágio Intermediário de degradação, com árvores frutíferas e pomares.

Feições Tecnogênicas

Domínio do Embasamento Cristalino
As encostas nesse domínio são alongadas apresentando vertentes esculpidas em perfis de alteração evoluídos a partir do Embasamento Cristalino.
Regra geral, estes perfis apresentam de base para topo: Rocha alterada / Regolito / Solos jovem-maduro argilo-siltosos com espessuras de até 30 metros.
Diferem entre si, pelo grau de evolução do solo amadurecido e/ou pelas modificações introduzidas por recorte de taludes. A maior parte de acidentes nesse ambiente ocorrem na forma de rupturas curvas de pequena extensão longitudinal e profundidades rasas desenvolvidas na interface solo jovem/solo maduro ou no ambiente raso do solo maduro e provavelmente estão condicionadas a problemas de drenagem em terrenos recortados.

Idem
Fonte: Plano Diretor de Encostas (PDE/2004)


O Capim Vetiver (Vetiveria zizanioides L. Nash)

O mau uso do solo acarreta um dos mais graves problemas ambientais, que é a erosão hídrica, com as estatísticas demonstrando sobre as perdas físicas dos solos em todo o mundo, com toneladas de terra férteis erodidas e transportadas para os rios. A intrincada rede de bainhas e folhas do Vetiver estabelece barreiras naturais, filtrando e aumentando a capacidade de infiltração da água, contribuindo com a melhoria da qualidade e da quantidade de água ofertada. Reduzem também a velocidade das enxurradas ao aumentar a capacidade de infiltração d’água no solo, controlando a erosão até mesmo em grandes inclinações

A literatura pesquisada indica que o plantio do capim vetiver deverá ser realizado em fileiras formando barreiras simples, com alta eficiência na conservação do solo e da água, controle de sedimentos, estabilização e reabilitação de terras. As raízes apresentam profundidade média de 3 a 4 metros após 12 meses de plantadas, tornando-a uma difusora de água em períodos chuvosos e ao mesmo tempo resistindo à secas prolongadas. Elas apresentam um impressionante poder de penetração, inclusive transpondo camadas com impedimentos rochosos e seu sistema radicular agregante de solo, forma um grampeamento natural muito difícil de ser desagregado, funcionando como “pregos do solo”.

Além do mais o capim vetiver não possui rizomas e suas sementes são estéreis não sendo, desta forma, uma espécie invasiva. Sua proliferação é feita por meio de divisão de touceiras. Possui resistência a pragas, doenças e incêndios, bem como é tolerante a solos ácidos ou básicos, sem alteração das características descritas.

O capim vetiver é intolerante a sombreamento, porém melhora o microambiente para que outras plantas semeadas ou pioneiras se estabeleçam. Ele realiza a proteção de mananciais e a contenção de encostas habitadas em áreas vulneráveis.

Em áreas degradadas, onde os métodos tradicionais de proteção ambiental são complexos, onerosos, pouco práticos e de eficiência questionável, a implantação do referido capim torna-se uma opção alternativa simples, eficiente, eficaz e de custo reduzido para a operacionalização.


Procedimentos da inspeção/observação:

As mudas plantadas não receberam tratamento específico. Na composição do berço (local do plantio), foram escavados buracos de aproximadamente 30 cm, sem nenhum tipo de adubação ou corretivo da acidez do solo. As mudas plantadas tinham tamanho aproximado de 50 cm (parte área) e não mais do que 10 cm em relação à região do enraizamento.

As regas realizadas foram, basicamente, no momento do plantio (Av. Luís Eduardo Magalhães) e regas mais frequentes (número não determinado), realizado pela comunidade, na região do Vale dos Barris.
Na primeira área o solo está em elevado grau de erodibilidade, sem camada de matéria orgânica. O mesmo tem característica laminar, cores entre amarelo e vermelho, além de concentração de material carreado nas calhas de drenagem, localizadas à jusante, do local de plantio.

No Vale dos Barris, o solo apresenta-se misturado com resíduos sólidos, proveniente de lançamentos por parte da comunidade, durante anos de manejo inadequado. Percebe-se um solo entre o cinza e marrom, caracterizando presença de matéria orgânica. Existe vegetação do tipo capim colonião, mamonas, bananeiras, coqueiros e outras árvores de pequeno, médio e grande porte. Os processos erosivos instalados estão associados aos períodos de ausência de vegetação e ocorre de forma superficial, com carreamento de folhas e solo para cotas inferiores.


Objetivo

Verificar a viabilidade do plantio do capim vetiver como uma alternativa preventiva para o uso da cobertura vegetal nas encostas de áreas vulneráveis Salvador, como forma de controle da erosão das mesmas.


Metodologia

A implantação do projeto piloto, através do plantio do vetiver, ocorreu em outubro de 2011, com inspeções periódicas previstas. Cumprindo a este cronograma, foi realizada em abril de 2012, após seis meses do plantio, a primeira inspeção programada.

Foram escavadas trincheiras de verificação nos dois pontos de plantio, para monitoramento da ramificação das raízes, crescimento vertical e alongamento das mesmas, além do esforço necessário para o arranque das plantas, neste caso, sem uso de instrumentos de medição.

Os resultados das ações em campo, neste momento, estão associados às experiências vividas por cada um dos técnicos envolvidos. Foram utilizados trena de medição para identificação das medidas e máquina fotográfica para registro; as ferramentas utilizadas para abertura das trincheiras e retirada das mudas foram uma enxada, uma enxadeta, uma picareta, uma pá, um cavador, uma cavadeira e um facão.


Avenida Luis Eduardo Magalhães:

Avaliação 1:
Área plantada: 100m²
Quantidade de mudas: 500

Participaram da inspeção/observação:
Rita Moraes – Codesal.
Gilberto Campos – Codesal.
Luís Ferreira da Silva – Limpurb ( a serviço da Codesal)
João Euflorzino Pinheiro – Limpurb (a serviço da Codesal)
Fernando – Biofábrica J.A.F.M
Edmilson - APQui
Nélson Araújo – Petrobrás.

Procedimentos e observações:

  1. Identificação das mudas passíveis de arranque. Foram escolhidas mudas de extremidades, que apresentassem pouca ou nenhuma influência junto à linha/fileira de plantio, não deixando que o espaço vazio acrescentasse maior fragilidade, embora o processo de replantio fosse ocorrer. As mudas apresentaram pouco desenvolvimento das partes áreas em relação à verticalização e visível alteração em relação ao fechamento das fileiras, ou seja, desenvolvimento de novas plantas no sentido horizontal, com consequente fechamento das fileiras.
  2. Escavação na parte frontal da muda para verificar o alongamento e área de influência da raiz. O solo apresenta-se com formato laminar e as raízes acompanharam as falhas associadas à este tipo de distribuição, formando uma malha de cobertura. Foram encontradas malhas até a profundidade de 50 cm, aproximadamente.
  3. Verificação da distribuição espacial das mesmas. Não houve avanço em relação à área delimitada para plantio. O desenvolvimento das mudas ocorreu no sentido de fechamento e intensificação somente nas fileiras plantadas.
  4. Combate à erosão superficial. Na calha de drenagem situada abaixo das fileiras de plantio do capim vetiver, não foram encontrados resíduos resultantes de carreamento de material, fato identificado nas áreas seguintes e posteriores à zona de plantio.


Avenida Vale dos Barris:

Avaliação 2:
Área plantada: 100m2
Quantidade de mudas: 400

Participaram da inspeção/observação:
Tomaz Miranda – Codesal
Paulo Feitosa – Codesal.
Gilberto Campos – Codesal.
Luís Ferreira da Silva – Limpurb ( a serviço da Codesal)
João Euflorzino Pinheiro – Limpurb (a serviço da Codesal)
Fernando – Biofábrica J.A.F.M

Procedimentos e observações:

  1. Identificação de mudas passíveis de arranque. Foram escolhidas mudas de extremidades que apresentassem pouca ou nenhuma influencia no desenvolvimento das fileiras. Não houve replantio, apenas fechamento do local escavado. Da muda inicialmente plantada foram recolhidos 16 propágulos replantados na encosta próxima a Codesal. O capim vetiver apresentou diferenças superiores em relação ao desenvolvimento vertical e maior adensamento das fileiras, quando comparados aos resultados da área localizada na Av. LEM.
  2. A escavação foi feita ao redor da muda para identificação da área de influencia da mesma. Pelo desenvolvimento da vegetação a melhor opção de escavação identificada foi em forma de circunferência, ao redor da planta. O solo apresenta-se com restos de resíduos sólidos, principalmente materiais cerâmicos. O desenvolvimento das raízes se deu tanto na formação de malha e touceiras, como também, na profundidade e verticalização, alcançando profundidade de até 1 metro. A tentativa de arranque manual demonstrou alta resistência da planta a este procedimento, o qual só foi atingido após a realização da completa escavação do entorno da planta.
  3. Verificação da distribuição espacial das mesmas. Não houve avanço da espécie plantada fora da área delimitada. Foi identificado adensamento das fileiras e do desenvolvimento horizontal nas áreas plantadas.
  4. Combate à erosão superficial. Entre as fileiras foram encontradas folhas de diversas árvores e, até mesmo, objetos, retidos pelas fileiras horizontais do capim vetiver. Resíduos de solos carreados de cotas superiores também.

Conclusão:

Os resultados alcançados demonstram uma adequação do capim vetiver às condições dos solos, sem cuidados adicionais ao plantio. No período do plantio os índices pluviométricos de Salvador para os meses de outubro, novembro e dezembro foram, respectivamente de 208,5; 319,2 e 86,4 mm, índices superiores a outros anos, o que, de certa forma, contribuiu para o desenvolvimento da vegetação. Os resultados relativos a controle da erosão superficial foram visíveis em ambas as áreas. O enraizamento, a dificuldade no arranque, o desenvolvimento e adensamento das fileiras corresponderam ao descrito na literatura demonstrando que o capim vetiver é uma alternativa viável para cobertura vegetal e combate a erosão superficial.


Bibliografia consultada:

Plano Diretor de Encosta (PDE/2004).
Sistema de Aplicação do Vetiver – Manual de Referência Técnica.


Anexos:


Fonte: Informativo do Serviço Geológico do Brasil - CPRM - MME/SGM - Ano 4 - Nº 16 - Edição de junho de 2007 - www.cprm.gov.br









Relatório Fotográfico – Vetiver.

A escolha das áreas
Foto em 04 de agosto de 2011. Vale dos Barris.
Foto em 04 de agosto de 2011. Vale dos Barris.
 
11 de agosto de 2011 – Av. Luis Eduardo Magalhães.
 
11 de agosto de 2011 – Av. Luis Eduardo Magalhães.
Obs: As fotos registradas como 04/01/2004 foram tiradas em 11 de agosto de 2011.






O inicio da intervenção - Vale dos Barris
04 de outubro de 2011 – Vale dos Barris
04 de outubro de 2011 –Vale dos Barris
04 de outubro de 2011 – Vale dos Barris
04 de outubro de 2011 – Vale dos Barris



O inicio da intervenção – Avenida Luis Eduardo Magalhães – LEM

Plantio com delimitação da área.
Visão geral da área de plantio
Calha de drenagem com sedimentos
Erosão superficial